Valeria Bursztein, de São Paulo
Quando 2009 terminou e os principais indicadores econômicos começaram a dar sinais de reaquecimento, a indústria em geral se animou com a perspectiva de ter deixado para trás a pior crise dos últimos tempos.
Na logística não foi diferente. A Brasilmaxi, que atua em transportes e soluções logísticas de armazenagem e distribuição, aproveitou a expansão do consumo e registrou, no primeiro semestre do ano, crescimento de 250% na movimentação de produtos do segmento de linha branca, entre os quais geladeiras e máquinas de lavar.
Conforme o gerente de Marketing e Vendas da Brasilmaxi, Paulo Tigevisk, a empresa passou a movimentar mensalmente 350 carretas com produtos do setor.
Os dirigentes da empresa – especializada em armazenagem, distribuição física, logística, serviços integrados, emergenciais e ferroviários, contêineres e transporte just in time – sabem, entretanto, que esses picos são exceções, com uma invariável tendência à harmonização.
Em entrevista ao Global Online, Tigevisk afirma que a indústria, hoje, retomou uma “velocidade de cruzeiro” e que a melhor lição extraída da crise é dar a devida importância ao planejamento e ao controle de custos. “Atualmente investimos de acordo com a demanda”, diz Tigevisk. Confira a íntegra da entrevista.
Global Online: O fim da redução do IPI nas vendas de linha branca afetou as operações da Brasilmaxi?
Paulo Tigevisk: Pelo que nos diz respeito, a queda não foi tão sensível, até porque a demanda continua a crescer, fortalecida pela melhor distribuição de renda e pelo acesso ao crédito. A economia está aquecida.
Global Online: É possível, então, replicar o resultado obtido nos primeiros seis meses de 2010 no segundo semestre?
Tigevisk: Acho difícil continuar no ritmo do primeiro semestre. Agora entramos no que chamo de “velocidade de cruzeiro”.
Diz-se no mercado que acabamos de passar pela “festa do pós-crise”, quando o consumo aumentou de maneira importante. Neste momento, há outra cadência, o que pode ser constatado em nossas operações: houve um pico e agora as coisas estão se acomodando, mas ainda há muita demanda. Não posso revelar as empresas por questões de confidencialidade, mas recebi na semana passada um bid para linha branca para a busca de um armazém de 100 mil metros no Estado de São Paulo.
Global Online: Além das operações com linha branca, como estão as outras atividades da empresa?
Tigevisk: Muito bem. A perspectiva de crescimento para este ano é de 18% e as metas estão sendo cumpridas mês a mês religiosamente.
Outro segmento de atuação que podemos destacar é o de logística in house. As empresas estão propensas a se dedicar mais ao core business e temos recebido diversas solicitações de cotação para assumir a logística de empresas que nunca terceirizaram.
Acabamos de assumir algumas operações de companhias que atuam nos setores químico, plástico e de suprimentos para a indústria. São operações de empresas multinacionais nas quais assumimos o abastecimento de matéria-prima, gestão de estoque e de expedição.
Global Online: Essas operações não envolvem os processos de importação e exportação?
Tigevisk: Não. Separamos muito bem esses produtos dentro da Brasilmaxi, até para evitar a contaminação. Como não obrigamos nossos clientes a tomar todos os serviços da empresa, em algumas das operações atuamos apenas como operadores logísticos e em outras absorvemos a operação completa, com o transporte também.
É muito importante ter opções a oferecer aos clientes, porque não somos competitivos em todos os aspectos da operação. Por exemplo, não fazemos o transporte fracionado, mas, quando isso é possível em transporte dedicado, somos competitivos. Isso não implica, entretanto, podermos concorrer com as empresas que são especialistas na movimentação de carga fracionada. Não temos interesse em contaminar a conta inteira por causa de uma única etapa da operação.
Global Online: Além da linha branca, a empresa se beneficiou da recuperação de algum setor em particular?
Tigevisk: O setor de bens de consumo de alto valor agregado foi o que mais sentiu a crise. Chegamos a registrar, no pico da crise, queda de 40% na movimentação. Nosso terminal de contêineres ficou vazio. Chegamos a ter 150 unidades armazenadas, e hoje temos mais de 1.300. Foi uma queda bastante importante, mas já se percebe uma recuperação generalizada.
Um setor na nossa carteira que se reestruturou com rapidez foi o de alimentação. Esses clientes pouco sentiram a recessão. Vale dizer que as empresas de produtos de alto valor agregado também já voltaram a patamares mais estáveis.
Global Online: É possível dizer que já se recuperou o que se perdeu?
Tigevisk: O que se perdeu está perdido. Outro dia, perguntei para um importante cliente do setor de eletroeletrônicos quando sua empresa voltaria a vender os volumes de antes da crise. Ele respondeu: “Nunca; aqueles volumes, nunca mais”. Os setores, de maneira geral, trabalham com o consenso de que os picos de vendas atingidos em meados de 2008 não retornam mais. Hoje em dia voltamos à realidade de mercado, com margens apertadas.
Global Online: Qual foi a lição mais importante da crise?
Tigevisk: A constatação da necessidade de planejamento e de controle de custo. Quando tudo vai bem, quando o resultado final é positivo, se torna muito difícil identificar empresas que controlam os custos de forma eficiente. À medida que a curva se inverte, vira uma verdadeira caça às bruxas: ou se corrige ou se perde a oportunidade.
Foi um momento interessante porque, em meio àquela maluquice que vivíamos, a Brasilmaxi investiu no comercial e conseguiu incrementar a carteira de clientes em quase 40%, entre novos clientes e substituições. Perdemos dois clientes importantes, mas entramos em setores novos, como o de alimentos, e conseguimos crescer 14% no ano passado.
Global Online: E quanto aos investimentos?
Tigevisk: Concluímos um importante investimento em TI, mas postergamos por tempo indeterminado a construção de um novo armazém em São Paulo. Mantivemos a injeção de recursos em frota, algo em torno de 20 novas carretas. A ordem, agora, é de fazer investimentos apenas sob demanda – sem limite, mas sob demanda. Se o contrato demanda mais 50 caminhões, investiremos sem problemas, mas fazer como no passado, de investir primeiro e correr atrás da demanda depois, não vale o risco. O desgaste é muito grande e se acaba aviltando a margem em função da necessidade de ocupar os ativos.
Global Online: Como a Brasilmaxi pretende participar dos projetos de infraestrutura planejados para o Brasil?
Tigevisk: Temos muito interesse. Montamos uma força-tarefa chamada Projeto Offshore e estamos investindo de maneira bastante estruturada para participar de toda a cadeia de petróleo & gás. Esse setor faz parte do nosso DNA, porque é transporte dedicado, no qual podemos determinar a frota e a rota – uma expertise da Brasilmaxi. Trabalhamos para a Petrobras há mais de 15 anos e somos credenciados a participar das concorrências da estatal.
A ideia agora é criar um produto específico para o setor offshore e, em médio prazo, abrir uma unidade em Macaé (RJ). Trata-se de um mercado muito carente, com necessidades muito específicas, que requerem experiência e know-how diferenciados no que se refere à logística.
Global Online: Os custos operacionais têm aumentando?
Tigevisk: Não tenho sentido uma pressão específica dos custos operacionais. Desde o começo do ano, estamos trabalhando com premissas parecidas. Obviamente, ao fazemos um projeto imaginando um contrato de 12 ou 24 meses, sempre ponderamos se haverá alguma movimentação de aumento de custos.
Uma questão bastante delicada a enfrentar hoje é a da escassez de mão de obra. É cada vez mais difícil encontrar profissionais treinados. A tendência é de termos de lidar com salários muito inflacionados.
Global Online: O fato de ser um ano de eleições pode afetar o desenvolvimento dos negócios?
Tigevisk: Já está afetando, desde antes da Copa do Mundo. Este ano é complicado. Havíamos feito uma projeção de crescimento mais conservadora porque sabíamos dessa particularidade.
Muitas concorrências que estão sendo colocadas agora serão concluídas apenas no final do ano ou em 2011. Estão todos com o freio de mão puxado. Quando muda o governo, há sempre a possibilidade de alterações, especialmente no que diz respeito à política tributária, e qualquer modificação nessas regras pode afetar todo o desenho da distribuição da montagem de pontos avançados de distribuição, de obtenção de benefícios fiscais. Então, o resultado das eleições pode mudar bastante as regras do jogo.
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