Fundação Dom Cabral analisa setor aéreo

12 July 2010

Valeria Bursztein, de São Paulo

 

O setor de transporte aéreo de cargas e passageiros vive um momento delicado. O ritmo da recuperação econômica mundial e suas repercussões diretas e indiretas forjaram uma intensa demanda pelo modal. As deficiências ficaram ainda mais evidentes à medida que aumentava o volume de mercadorias e passageiros a transportar. Associam-se ao cenário projetos de grande vulto, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Entre os especialistas, as opiniões convergem para a urgência de investimentos na ampliação da estrutura disponível e na capacitação de profissionais.

Em entrevista ao Global Online, o coordenador do Departamento de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, afirma que a situação dos aeroportos hoje é similar à dos portos antes da privatização.

Para ele, é imprescindível uma organização operacional e espacial mais eficiente entre aeroportos, nos âmbitos de cargas e passageiros. Confira os principais trechos da entrevista.


Global Online: Como a Fundação Dom Cabral aborda o universo da logística?

Paulo Resende: Montamos o Núcleo de Infraestrutura e Logística, que aborda a temática dos quatro modais de transporte de carga, bem como da mobilidade urbana.

Começamos, então, a estudar a questão da infraestrutura logística no Brasil a partir do ponto de vista do mundo corporativo. Isso explica por que não estamos muito presentes nas discussões sobre a gestão pública dos diversos setores da logística.

Nosso primeiro critério de abordagem foi a competitividade. Todos os nossos estudos voltaram-se a responder uma pergunta: o que os gargalos logísticos no Brasil podem provocar para a competitividade das empresas e do País e qual a sua participação na formação do custo Brasil?

Os primeiros resultados nos levaram ainda a observar a questão dos indivíduos, porque muitas empresas que operam com cargas também têm graves dificuldades com o deslocamento de seus executivos e os custos envolvidos.

 

Global Online: Quais são as principais queixas da iniciativa privada em relação à disponibilidade e à qualidade dos serviços no setor aéreo?

Resende: Existe uma série importante de questões sem resposta. No setor aéreo, há uma grita entre as empresas, que não admitem um país como o Brasil, com suas dimensões e potencialidades, ter representação tão diminuta de cargas na matriz de transportes.

As empresas com as quais nos relacionamos não entendem, por exemplo, a inexistência de tratamento de hub ou a falta de complementação entre os aeroportos, gerando concorrência entre eles, ou ainda a ausência de conexões microrregionais no País para formar malhas logísticas de carga e a questão do multimodalismo.

As companhias indagam por que não existem centros industriais e plataformas logísticas próximas aos aeroportos e reclamam da concorrência entre passageiros e cargas.

Vale esclarecer que nunca estivemos envolvidos na máquina responsável por operar os aeroportos no Brasil, mas sim nos estudos relacionados aos clientes dessa máquina: empresas e passageiros. Também não nos envolvemos nas políticas públicas.

 

Global Online: Há uma demanda concreta da iniciativa privada de contar com vias de distribuição mais eficientes, correto?

Resende: Certo. Escutei de um CEO de uma grande empresa do setor de tecnologia que tem imenso potencial como usuária do transporte aéreo – mas que acaba fazendo a distribuição por rodovia – que ele se sente alijado do transporte aéreo, sistema completamente desconhecido em sua realidade. Esse executivo sente-se mais seguro no modal rodoviário porque se trata de empresas com as quais opera no dia a dia, mantendo um relacionamento de parceria em contratos com acordos de nível de serviços muito bem desenhados, de longo prazo, que estão próximos da atividade desse empresário. Quando lhe perguntei por que não estava localizado próximo a uma plataforma logística dentro de um aeroporto, ele me pediu para identificar qual aeroporto poderia oferecer essa estrutura...

Muitos empresários do setor aéreo afirmam que as companhias consideram o passageiro muito mais importante que a carga. Este é o único país em que, quando se pensa em avião, faz-se associação imediata com o passageiro. Outro paradigma importante: o mundo corporativo considera o transporte aéreo de passageiros um domínio público, especialmente da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) – ou seja, o passageiro não tem ingerência na execução do serviço.

Com respeito à carga, há ainda outro paradigma: as empresas no Brasil acreditam que o transporte por avião é expresso, o que não é verdade. Operadores logísticos sabem que, muitas vezes, a carga demora mais para ser liberada do que para ser deslocada de um país a outro.

 

Global Online: A que, exatamente, se deve essa problemática? Número de aeroportos? Gestão dos aeroportos? Ambos?

Resende: Ambos, definitivamente. Não entendo por que aeroportos com grande capacidade de movimentação de carga e passageiros não podem se transformar em terminais de escala, isto é, por que os hubs têm de coincidir com os aeroportos que operam com os destinos de maior volume no Brasil. Esse é um problema de gestão, certo?

Nos Estados Unidos, na década de 1970, quando houve a desregulamentação do setor aeroportuário, criou-se uma noção de aeroportos principais e secundários, com base no volume de movimentação internacional, o que deu racionalidade à operação. Seria muito bom adotarmos esses critérios.

 

Global Online: Falta uma atitude mais concreta e proativa por parte da iniciativa privada e do governo para formular uma estratégia de ações para solucionar os problemas de hoje e, assim, minimizar os gargalos previstos para o futuro próximo?

Resende: Acho que o setor de aviação no Brasil foi sendo levado, inconscientemente, para um buraco negro de irresponsabilidades. Explico: a aviação no País sempre foi considerada um setor estratégico, comandado pela Aeronáutica. A responsabilidade da Infraero tem limite porque a empresa só opera o terminal, deixando para as companhias aéreas a responsabilidade pelo transporte e pelas operações em terra. O acesso ao aeroporto é da cidade... Assim, tem-se uma confusão de responsabilidades.

Esse sistema foi sendo usado e ninguém atentou ao fato de que, em determinado momento, haveria a necessidade de contar com uma congênere da FAA (Federal Aviation Administration), órgão dos Estados Unidos que regulamenta toda a operação. Acredito que a gestão de terminal aeroportuário pertence ao escopo de atuação das empresas.

Vejo que hoje a Infraero está em uma sinuca de bico, porque tem responsabilidades que não deveria ter. A empresa deveria dedicar-se a atuar como guardiã das regulamentações e das leis aeroportuárias no Brasil.

 

Global Online: O senhor vê os aeroportos brasileiros em uma situação similar à dos portos, antes da lei de privatização?
Resende: Sim, com toda a certeza. O País terá de tomar decisões dolorosas. Caso contrário, o setor aéreo ficará com a pecha de ineficiente, tal qual tinham os portos no passado.


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