Parceiros árabes19 July 2010Valeria Bursztein, de São Paulo A corrente comercial entre o Brasil e os países árabes alcançou o valor de US$ 8,31 bilhões no primeiro semestre de 2010. No acumulado, o fluxo de compra e venda de mercadorias com o Brasil apresentou crescimento de 30,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados foram fornecidos pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileria na semana passada. No primeiro semestre deste ano, o Brasil exportou US$ 5 bilhões para os países árabes, o que representa crescimento de 16,12% sobre os US$ 4,3 bilhões registrados no mesmo período de 2009. As importações de produtos árabes pelo Brasil, por sua vez, atingiram o montante de US$ 3,3 bilhões, revelando alta de 62% na comparação com os US$ 2,04 bilhões de janeiro a junho do ano passado.
No primeiro semestre de 2010, os países árabes, juntos, figuraram como o quarto maior destino das exportações brasileiras, com 5,6% do total embarcado. Solano salientou que a pauta de exportação brasileira para os países árabes ainda está muito concentrada em carnes, açúcar e minérios. “Os países da Liga Árabe são importadores de uma infinidade de produtos, nos setores de máquinas, transporte e eletrônicos, entre outros, evidenciando que essa grande variedade deveria ser mais bem explorada pelos exportadores brasileiros, especialmente os que atuam com construção, alimentos e moda”, disse. Solano chama a atenção para o acentuado crescimento na exportação de produtos da agroindústria. “Neste ano, o resultado equivale à expansão das exportações em geral, com 17,16%, contra os 15,82% do mesmo período de 2009”. O desempenho positivo das vendas para os árabes foi sustentado, sobretudo, pelo crescimento de 24% das exportações brasileiras para os países do Golfo Arábico, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, entre outros, que absorveram US$ 2,75 bilhões em mercadorias. No ranking dos quatro principais destinos das exportações brasileiras para os países árabes – liderado pela Arábia Saudita, com um total de US$ 1,3 bilhão –, dois estão localizados no continente africano: Egito e Argélia, com respectivamente US$ 732,5 milhões e US$ 329 milhões. Nesse grupo estão ainda os Emirados Árabes Unidos, com US$ 700 milhões. Com relação às importações, percebe-se intensa variação, fruto da grande influência do petróleo na pauta de compras internacionais brasileiras entre os países árabes. No ano passado, houve queda de 61,3%, mas neste se verifica ascensão das importações de 62%. Do total que o Brasil importa dos países árabes, o petróleo corresponde a mais de 80%, indicando o grande peso do produto nas trocas comerciais. “Com relação ao saldo comercial, há importante variação devido ao petróleo. No primeiro semestre, tivemos o segundo maior saldo comercial desde 2003”, explicou Solano. “Em compensação, em 2008, por causa da explosão do preço do petróleo, o saldo comercial foi negativo”. Excluindo-se o petróleo das importações brasileiras, o saldo comercial seria de US$ 4,5 bilhões. Na avaliação da Câmara, percebe-se uma tendência de queda nos volumes importados pelo Brasil, em função do aumento da produção nacional.
Agroindústria As exportações brasileiras do setor de agronegócio para os países árabes cresceram 17,62% no primeiro semestre de 2010 em relação ao mesmo período de 2009, ao passar de US$ 2,9 bilhões para US$ 3,4 bilhões, representando mais de 60% da balança comercial. Nesse período, a participação dos países árabes na pauta de exportações brasileiras do agronegócio equivaleu a 9,9% do exportado para o mundo. O volume de vendas externas do agronegócio para os árabes representa 69,7% do total exportado para a região. Os quatro principais compradores árabes do setor de agronegócio no período de janeiro a junho de 2010 foram: Arábia Saudita, com um total de US$ 849,65 milhões (+24,4%); Egito, com US$ 484 milhões (+14%); Emirados Árabes Unidos, com US$ 464 milhões (+13,5%), e Argélia, com US$ 300 milhões (+8,6%). Os produtos mais exportados para a região nesse período foram açúcar e carnes, que, juntos, representam 84% do total das vendas externas do agronegócio brasileiro, totalizando US$ 2,9 bilhões. Além disso, as exportações de soja para os países árabes tiveram aumento de 19%, saltando de US$ 49 milhões no primeiro semestre de 2009 para US$ 58,5 milhões no mesmo período deste ano.
Investimentos O grupo formado por 22 países que têm o árabe como idioma oficial ocupam posição geográfica privilegiada, próxima da África Subsaariana e da Europa. Trata-se de um mercado de 350 milhões de habitantes que, segundo o Economist Intelligent Unit, têm renda per capita média muito alta (no Catar, por exemplo, pode chegar a US$ 70 mil). Os maiores PIBs árabes estão distribuídos por Arábia Saudita, Egito, Argélia e Emirados. Vale notar ainda que, mesmo em um ambiente pós-crise, os países apresentam expressivas projeções de crescimento, acima de 4%, destacando-se o Catar, com 23%. Como produtores de petróleo, os países árabes são grandes geradores de receita, atraindo serviços e projetos de toda ordem e atuando como investidores de peso em várias regiões do mundo. Em termos de investimentos diretos, o país que mais recebe recursos internacionais (22,8%) é a Arábia Saudita, onde estão em curso diversos projetos de expansão, como, por exemplo, quatro cidades sendo construídas do zero, gerando investimentos da ordem de US$ 65 milhões – um tremendo mercado para as empresas brasileiras. No sentido inverso, a projeção de investimentos em outros mercados é intensa em 2010. Kuait, Líbia, Catar e a Arábia Saudita concentram praticamente 90% das estimativas de investimento externo dos 22 países árabes.
Interesse real
Segundo Schahin, o êxito desses novos projetos depende de uma posição mais agressiva do Brasil em termos comerciais. “O País sempre esteve um pouco fora do radar do mundo – e especialmente do mundo árabe, por causa da distância. O empresário brasileiro tem um mercado interno enorme e, muitas vezes, prefere manter sua atividade entre as fronteiras nacionais, mas essa primeira leva de empresas brasileiras que estão acessando o mundo árabe e começando a divulgar tanto as conquistas quanto a rentabilidade das exportações abrirá trilhas para que outros eventuais exportadores comecem a pensar no mundo árabe de outra maneira”. O presidente da Câmara alertou: “Se não formos em busca dos mercados, dificilmente as coisas vão acontecer. Temos de atrair investidores externos, que, porém, querem ter condições facilitadas para justificar o retorno que estão esperando. Existem muitas oportunidades de investimento no mundo; somos apenas uma. Temos de saber vender-nos de forma competitiva, e isso se dá pela coerência e pela persistência na cultura exportadora”, detalhou.
Pré-sal É fácil associar o pré-sal brasileiro à expertise de exploração de petróleo árabe. Também não fica nada difícil pensar que esses países teriam interesse em investir no que está sendo considerada a maior descoberta de combustível fóssil dos últimos tempos. Mesmo com tantas evidências, no entanto, Schahin não confirma nenhuma tratativa concreta entre árabes e brasileiros.
A infraestrutura também é um setor de intensa potencialidade para a entrada de recursos estrangeiros. A exemplo da Dubai Ports, que investiu na construção de um novo terminal portuário em Santos (SP), outras empresas olham para a questão de infraestrutura com grande interesse. O problema logístico tem extrema importância.
Eleições Schahin não mediu palavras para destacar a importância da atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no entrosamento comercial entre o Brasil e os países árabes. “Não quero criticar governos anteriores, mas acredito que a postura deste governo em ampliar as relações com outros países é extremamente importante, haja vista como lidamos com a crise econômica. Existem enormes oportunidades na África e nos países árabes, regiões em que é possível entrar oferecendo produtos e serviços tão competitivos quanto os chineses, indianos e de outros concorrentes. Agora temos de ser proativos”, alertou. |